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Opinião: De Tractor a Cagaf-Cagaf

03/07/2018

Numa publicação especializada em mecanização agrícola como é a revista Abolsamia, tractor é seguramente uma das palavras que maior número de vezes já apareceu escrita nestas páginas. Não é de admirar. Embora a agricultura não se faça só com tractores, é este o tipo de máquina que está no centro do negócio. Com a entrada em vigor do Acordo Ortográfico de 1990 (AO90), tractor perdeu a letra ‘c’, tendo passado a escrever-se ‘trator’.

Na Redacção da revista, atravessámos uma fase de transição em que alguns de nós continuaram a seguir a antiga grafia e outros a nova. Mas era preciso harmonizar para que a publicação como um todo não tivesse diferentes grafias à espreita de cada vez que se virava uma página. Posto isto, chegou-se a um compromisso. As peças são escritas segundo o AO90 e passou a figurar na Ficha Técnica uma nota onde é dito que “Abolsamia segue o AO90, embora nem todos os colaboradores tenham adotado a nova grafia”. No fundo, serve como uma ligeira salvaguarda para quem escreve em ‘acordês’ a contra-gosto.

Pessoalmente, rejeito convictamente a nova grafia. Não porque me oponha a reformas ortográficas, mas porque não reconheço nas modificações engendradas qualquer justificação ou utilidade. Vejo-as apenas como um rol de disparates sem lógica, nocivos à estabilidade e consistência da língua, que originam situações confusas, e que afastam o português das línguas europeias e da sua base etimológica. E sem que daí resulte algum proveito. E no entanto, cá me vou ocupando a escrever tractor sem ‘c’, porque é a norma que vigora. Mas de cada vez que escrevo esta palavra assim adulterada, e não apenas esta, gera-se dentro da minha cabeça uma espécie de atropelo mental.

Tractor deriva da palavra latina tractiõne, que significa arrastar. Ao removermos a letra ‘c’, removemos também a ligação ao significado original. ‘Trator’ parece remeter assim para uma pronunciação com ‘a’ fechado, próxima dos vocábulos tratar, ou tratador sem uma das sílabas. A meio de um destes atropelos provocadas pelo AO90, recorri à ferramenta de tradução do Google para ver de que forma é escrita noutros idiomas esta palavra tão central no léxico que usamos aqui na revista. Verifiquei que em países europeus, apenas em maltês, em islandês e em italiano a forma escrita diverge daquilo que podemos considerar que é a norma, com o segundo ‘t’ a ser antecedido de um ‘c’ ou de um ‘k’.

Não tem, pois, qualquer lógica que tractor tenha passado a ‘trator’. Mas podia ter sido bem pior se ao Professor Malaca Casteleiro, considerado o pai do acordo ortográfico, lhe tivesse dado na telha mudar tractor para a tradução da língua somali. Por precaução, o melhor é não lhe darmos ideias. Mas pelo sim pelo não, fica o leitor alertado. Se um dia destes dissermos que vamos para o campo experimentar um Cagaf-Cagaf, já pode imaginar o que terá acontecido.

 

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