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Regadio sustentável

09/10/2018

Foto: Francisco Marques

 

Sustentabilidade. O que podemos dizer deste palavrão quando falamos do regadio?

Estamos a utilizar menos água, mas a consumir mais energia. Se nos anos 60 do século passado utilizávamos, em média, 15000 m3 de água por hectare, os números mais recentes apontam para 5500 m3/ha. Em contrapartida o consumo de energia disparou. Enquanto naquela mesma década a média era de 200 kWh por hectare regado, hoje ultrapassamos os 1500 kWh. Tem sido feita uma aposta na modernização do regadio para a eficiência da utilização da água, mas com recurso à energia e à pressurização da rede de rega. Nos 540.000 ha de área de regadio nacional, 75% da área utiliza rega sob pressão (aspersão, micro-aspersão, gota a gota e subterrânea). Isto significa que, a nível mundial estamos entre os países líderes em regadio eficiente, como Israel ou Espanha. Os números demonstram que estamos a fazê-lo [a irrigação] de forma muito mais eficiente. Por isso temos que gerir esta dualidade – água versus energia – que são as duas importantes, são as duas escassas e são dois recursos sobre os quais temos que nos preocupar para a sustentabilidade do nosso regadio.

Daí, também, o vosso pedido de apoio ao investimento nas energias alternativas…

Surge no mesmo sentido do que reclamam os nossos colegas europeus. Se no norte a vantagem é dispor de energia limpa alternativa baseada no vento, para nós esse recurso provém do sol. Acontece que, outrora, a viabilização dessa forma de energia não estava tão acessível ou era muito cara, agora é muito mais acessível e eficiente, contrapondo-se aos elevados custos da energia elétrica. Ora, isto é muito importante ser trabalhado de modo a tornar viável a utilização da energia fotovoltaica para apoio às instalações agrícolas.

E como poderia ser dado esse apoio?

Exemplificando, há áreas de rega que foram recentemente reabilitadas mas quando este tipo de tecnologia ainda não era acessível e/ou havia grande desconhecimento a seu respeito. A reabilitação foi realizada ao nível dos sistemas hidráulicos, mas manteve-se no método tradicional a energia fornecida. Acontece que hoje em dia não existe dentro do PDR2020, nenhum programa de apoio exclusivo para a instalação de energia fotovoltaica. Assim, se eu hoje arrancar com um projeto de raiz, com uma componente hidráulica e outra fotovoltaica - e isso até valoriza o projeto - é possível o apoio, mas se quisermos apenas investir na instalação fotovoltaica não há nenhuma linha de apoios disponível, no âmbito do PDR2020. Há portante que alterar os regulamentos para alterar esta situação.

“A gestão eficiente da água e energia em regadio” foi tema de uma sessão técnica na Associação de Beneficiários da Obra de Rega de Odivelas (ABORO). Falou-se desta alternativa energética?

Foi um evento muito interessante, em que foia presentado um investimento promovido e realizado por uma associação de regantes. O empreendimento tinha duas estações elevatórias de água, mas que não tinham componente fotovoltaica integrada. Sem recurso a outro tipo de apoios, a associação investiu, em dois parques solares, e a verdade é que já apontam para valores de eficiência na ordem dos 60%, no que refere aos custos da energia para operar aquelas estações.

Em março, a Fenareg uniu-se às congéneres espanhola, francesa e italiana e fundaram a Irrigants d’Europe (Irrigantes da Europa). Com que objetivo?

Esta nova organização surge da necessidade que os países do sul da Europa sentem em defender os seus interesses junto da União Europeia [EU]. É um grupo de pressão, pode dizer-se para fazer ‘lobby’, e a ideia é criar uma estrutura representativa que pressione as instâncias de Bruxelas na defesa do regadio. Perguntar-se-á porquê agora, se já estamos na UE há tanto tempo. A verdade é que estamos em fase de discussão da nova PAC [Política Agrícola Comum] e da Diretiva-Quadro da Água, dois temas muito importantes relacionados com o regadio e achámos por bem não entregar a terceiros a defesa dos nossos interesses. Juntámos Portugal, Espanha, França e Itália, representamos cerca de sete milhões de hectares de regadio.

Como é que Portugal assume a presidência?

O processo é colegial e ficou assente que Portugal liderará nesta primeira fase. Não sendo nós uma potência agrícola como os demais parceiros, terá sido até uma maneira simples de escolher a presidência. Mas foi reconhecido que somos bons negociadores, nos mais variados cenários e temos tradicional facilidade nas relações com outros países. Julgo que, entre outros, estes fatores também pesaram nessa decisão.

Que temas são prioritários? Por onde começar?

Os temas são comuns e concretamente são as políticas europeias sobre a água e a agricultura. Não temos com os nossos parceiros, divergências de fundo sobre essas matérias. O orçamento comunitário está na primeira linha, os apoios ao regadio – e garantir que existem -, e finalmente as questões ambientais que estão relacionadas com o regadio, injustamente considerada ‘persona non grata’ por alguns setores da europa.

Porquê "non grata"?

Porque a visão dos países do norte da Europa, para quem o regadio não é fundamental, é bem diferente da dos do sul. Ali chove mais durante a estação do Verão, pelo que não têm necessidade de regar. Os seus solos são diferentes, pois o clima também é diferente. No entanto, reconheço que estão a mudar a atitude. Fruto da influência da alterações climáticas, começam a surgir nalguns países do norte da Europa, para quem o tema da rega nunca foi importante, sinais de alarme e já equacionam ter que regar, agora que as chuvas são menos abundantes do que eram. Como exemplo a Alemanha e a Holanda já começam a regar áreas significativas.

O presidente da CAP, em entrevista à revista abolsamia (nº 111), veria com bons olhos o Tejo a regar o Oeste. Partilha essa opinião?

Claro. Há que aproveitar esta água convenientemente para que a possamos usar em época de seca, não só para a rega, mas também para outros fins. Não nos poderemos esquecer das questões ambientais, da fauna, da flora, do abastecimento humano, da navegabilidade do Tejo. E poderemos resolver o problema da região do Oeste, riquíssima em termos agrícolas, mas com recorrentes problemas de escassez de água. E a projetada barragem do Crato (Pisão), pensada nos anos 50, já com estudo prévio concluído, só aguarda decisão política para avançar. Seria um grande salto para o regadio e mais uma importante reserva estratégica.

Mas há um diferendo com Espanha, a propósito dos caudais libertados…

Essa é uma questão importantíssima nas linhas de água que dependem de bacias internacionais. Em termos agrícolas, a mais importante é a bacia do Tejo. Se no Guadiana, por causa do Alqueva, foi negociado caudal um contínuo, que está a ser respeitado e garante um escoamento contínuo na bacia, na bacia do Tejo a situação é diferente, pois o que está negociado é um caudal semanal. Mas não tenhamos ilusões: caso de escassez, os espanhóis não a vão deixar passar ou abrir as suas barragens para libertar caudais para Portugal. Por isso, temos que ter capacidade de reserva do nosso lado. E os estudos existem. Os técnicos sabem onde devem ser feitos esses reservatórios. Imoral é vermos o Tejo em Santarém no último verão, parecer um deserto de areia e recentemente com as últimas chuvadas ficar a transbordar

Reservar água à superfície e pressionar menos a subterrânea?

A água subterrânea deve ser reservada para situações de emergência. Mas para a isso é necessário dotar o país de sistemas de armazenamento com maior capacidade. Estou a falar de grandes barragens, com capacidade de regularização interanual, que possam regularizar caudais de cheia e suprir dificuldades de escassez durante dois ou três anos consecutivos. Na recente seca, que persistiu mais de dois anos, a única grande bacia que não teve problemas foi a do Guadiana. Lá está, porque tem o Alqueva com uma capacidade de reserva para quatro anos. Outro exemplo, aqui no Vale do Sorraia, as albufeiras do Maranhão e Montargil dão normalmente para duas campanhas, mas até ao final do passado mês de fevereiro a perspetiva era dramática, pois não tínhamos armazenada água suficiente para garantir a campanha de rega. Felizmente a precipitação de março inverteu esta situação.

De que mais se queixam os regantes associados?

Em termos de federação é fundamental garantir que continuará a haver apoios para a modernização/reabilitação dos perímetros de rega. Se conseguirmos modernizar e melhorar a eficácia da distribuição da água na ordem dos 30 a 40%, a reserva que agora é suficiente para um ano e meio estaria disponível para dois anos. É que nos últimos anos só se fala em Alqueva e só se investe em Alqueva. Não quer dizer que não seja importante, mas é fundamental que se invista em outros perímetros. Concluído Alqueva temos que nos virar para perímetros mais antigos, pois a grande maioria é anterior aos anos 70. Há que os modernizar para atingirmos mais eficiência.

Falou da preocupação com o orçamento da PAC. Isso também tem a ver com o Brexit…

PAC é muito importante, mas é uma grande incógnita. Se há quem nos diga que não há qualquer problema, outros falam do tema com gravidade. Mas estamos apreensivos com as notícias que vamos conhecendo sobre eventuais reduções do orçamento. A saída da Inglaterra também não ajuda nesta questão.

Isso pode prejudicar o ambicionado apoio à modernização?

Há um grande trabalho que se encontra por realizar a montante do agricultor, para aquele que lhe leva e transporta a água. Para ter uma ideia, no presente quadro comunitário de apoio foi anunciado a abertura de um procedimento de candidatura para a modernização das obras de rega, com dotação de cerca de 120 milhões de euros, mas as intenções apresentadas foram de mais de 400 milhões de euros. Voltando ao exemplo da Obra do Sorraia, nos anos 70 faturávamos cerca de 200 milhões de m3, hoje faturamos 130 milhões de m3 e a área regada aumentou de 12 para 18 mil hectares. Se aumentámos a área regada utilizando menos água, poderemos dar um salto muito maior se foram feitas as referidas obras de modernização e reabilitação.

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