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BIOMASSA
Recurso económico renovável ou oportunidades de bionegócio em risco?

24/05/2019

Por massa total dos seres vivos que subsistem em equilíbrio numa superfície de solo ou volume de água entendemos a biomassa; se esta for florestal saberemos que resulta da gestão e exploração do material lenhoso resultante de cortes fitossanitários, de medidas de defesa contra os incêndios e ainda do controlo de áreas com espécies invasoras. É um recurso que pode ser valorizado e um combustível que está a ser aproveitado para a produção de energias elétrica e térmica. Mas por que razão não está toda a gente satisfeita? Diz-se que pelo baixo preço pago aos proprietários florestais.
Não foi a pensar no valor de cada fardo de biomassa florestal que em março se juntaram para um workshop, no Porto, alguns daqueles atores, convocados pela Forestis – Associação Florestal de Portugal, promotora do projeto BioTecFor, no qual participam a congénere da Galiza e o Instituto de Engenharia de Sistemas e Computadores, Tecnologia e Ciência (INESC TEC). O objetivo era dar contributos para tal projeto, que pretende informar e promover a bioeconomia e desenvolver ferramentas e tecnologias inovadoras para melhor aproveitar e valorizar os recursos florestais.
Só que, na hora do debate, foi a economia que mais pesou na balança. “[Com o BioTecFor] preocupa-nos a bioeconomia que daí pode resultar através da exploração de recursos florestais, para lhe acrescentar valor. Mas também não tem havido motivação económica dos proprietários para melhor gerirem a floresta. E se os resíduos florestais podem ter um bom destino, para a valorização energética, é preciso haver mercado e logística para a formação de preços”, sustentou Luís Braga da Cruz, antigo ministro da Economia, que já dirigiu a CCDR-Norte e é o atual presidente da Forestis.

 

Mais corte que reflorestação
Pedro Serra Ramos, presidente da Associação Nacional de Empresas Florestais, Agrícolas e do Ambiente (ANEFA), colocou o dedo na ferida: “A economia é que move o setor, que de momento se encontra praticamente parado, pois o nível de corte é muito superior ao da reflorestação, e quando só estamos muito preocupados com as limpezas do mato caminhamos para um destino insustentável.”
“Em Portugal temos um monopólio. Aqui não há a lei da procura e da oferta, mas alguém que, de cima, define o preço, até chegar ao produtor florestal, a quem quase nada chega. Tem sido assim nos últimos 30 anos”, acusou o dirigente dos ‘empreiteiros florestais’, identificando os perigos: “A biomassa e a sustentabilidade estão em risco, pois nós não plantamos. Temos associados que têm viveiros florestais em trespasse e hão-de passar a ser viveiristas agrícolas.”
Segundo Pedro Ramos, a biomassa pode ter outras utilizações e a solução é incorporá-la no solo - “sempre aprendemos que os nossos solos não são ricos e se não devolvermos parte do que lá retiramos não é com a adubação artificial que o fazemos.”

 

Formação do preço
Braga da Cruz, desta vez mais crítico, expressou dúvidas: “Qual o preço do metro cúbico da biomassa? Não temos forma de o saber. Com a potência instalada das centrais já não há biomassa suficiente, mas o preço do mW/h continua a aumentar. Quanto está a ser remunerada a biomassa sobrante, residual, de um corte. Há por aqui sítios em que é zero euros. Quase é preciso dar uma gratificação ao motorista para levar a madeira dali para fora. De quem é a responsabilidade?”
A ANEFA já tinha as contas feitas: 8 euros por tonelada de resíduos, pela rechega, trator, reboque e grua; descarga, 2 euros/ton; produção de estilha, 10 euros/ton; transporte (-de 30km), 27 euros/ton. Total, 47 euros/ton. Disse Pedro Ramos que em França a biomassa é paga a 60 euros/tonelada.
A resposta, espera-se que possa ser dada durante a próxima Conferência e Exibição Europeia de Biomassa, que se realizará em Lisboa, entre 27 e 31 de maio e que reunirá os principais especialistas continentais na matéria.

 

 

 

Escalada do preço?
Só que há notícias contraditórias. Em fevereiro, e citado pelo diário digital Dinheiro Vivo, Carlos Alegria, presidente da Associação dos Produtores de Energia com Biomassa (APEB), lançou o alerta: “Se o preço dos resíduos florestais chegar aos 40/50 euros por tonelada, que é o valor pelo qual são vendidos à indústria da pasta de papel, porque tem um maior valor económico, eu fecho a central. Não foi para esse valor que ela estava prevista”. Num espaço de menos de um ano, o preço da matéria-prima que alimenta as centrais a biomassa que estão a nascer por todo o país praticamente duplicou: de 25 a 27 euros por tonelada, para o dobro.”
Isto é, quando essa matéria-prima existe: ainda em janeiro, o mesmo líder da APEB disse ao Jornal de Negócios: “Com os incêndios que ocorreram nos dois últimos anos, a quantidade de biomassa existente reduziu significativamente.” Talvez por isso, Pedro Ramos disse no debate que “muita madeira está a ser consumida como biomassa florestal. Madeira pura.”
Outro participante, da fileira dos prestadores de serviços florestais exclamou: “Não matem a galinha dos ovos de ouro!”, justificando que enquanto não houver valorização não há incentivo para nada. “Quando se olhar para a biomassa como um negócio a sério, tudo bem. Quando se plantar biomassa como se planta milho, colher-se-á biomassa. Quando se der uso a terrenos desaproveitados teremos incentivos. Quem planta não irá virar costas, vai tratar, vai garantir que o espaço estará limpo, pois no fim sabe que a madeira que vender será valorizada. Aí sim, haverá investimento em mecanização. Quando esta madeira queimada se acabar, não tendo havido novos plantios, iremos buscar madeira onde?”

 

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