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Tratores sem condutor

02/11/2017

Foi numa das maiores feiras agrícolas dos Estados Unidos, a Farm Progress Show, que o Grupo CNH desvendou os seus últimos avanços em matéria de condução autónoma, ao apresentar em simultâneo dois tratores, um New Holland e um Case IH, dotados de tecnologia que dispensa não só a intervenção do condutor, como até mesmo a sua presença.

T8 e Magnum sem condutor

De ambos, aquele que mais tem dado que falar ao longo das últimas semanas é o Case IH, baseado na linha Magnum, essencialmente porque do ponto de vista estético, ao não ter cabine, desperta mais a atenção.
Mas o modelo da New Holland, baseado na linha T8, surge apetrechado com o mesmo pack de tecnologia do Case IH, e com a vantagem adicional de poder ser conduzido como qualquer outro trator, para que possa circular em estrada ou realizar outras tarefas onde o agricultor entenda que deve assumir o controlo.    
Àparte a visibilidade conseguida com o modelo sem cabine, a Case IH também pode disponibilizar a tecnologia num Magnum de aparência normal, com cabine.

Como funcionam os novos modelos CNH

Recorrem ao mapeamento de parcelas e localização por GPS, e possuem uma vasta tecnologia de sensores que inclui radar, LIDAR (deteção por laser), e câmaras de vídeo que asseguram a localização de obstáculos.
O conjunto trator/alfaia pode ser controlado a partir de um computador de secretária. Um interface próprio permite ver a progressão feita no campo, com base em imagens captadas por câmaras, e permite também ajustar parâmetros de funcionamento do conjunto, como a velocidade, a profundidade de trabalho, ou a dose de semente ou herbicida a aplicar.
Mas o desempenho também pode ser supervisionado a partir da cabine de uma outra máquina com que o agricultor esteja a trabalhar na mesma parcela, ou nas redondezas, o que demonstra a possibilidade de os tratores autónomos serem integrados numa frota já existente.
Para o futuro, estas marcas preveem que os tratores autónomos possam utilizar “big data”, tal como informações em tempo real enviadas por satélites meteorológicos, de modo a fazerem automaticamente o melhor uso das condições ideais, independentemente da intervenção humana.

Ou seja, o trator irá parar perante condições climáticas adversas, e retomar o trabalho quando o tempo tiver melhorado. Ou em alternativa, pode deslocar-se para outra zona da propriedade onde por exemplo os solos sejam mais leves ou estejam menos encharcados.
O desenvolvimento destes protótipos resultou de uma parceria entre o Grupo CNH e a firma americana Autonomous Solutions Incorporated

Não é uma ideia pioneira

Há já uns bons anos que a John Deere desvendou o seu projeto de trator autónomo, a Fendt tem vindo a trabalhar na tecnologia Guide Connect, através da qual um trator sem condutor reproduz via rádio/GPS todos os movimentos de um trator conduzido que trabalhe na mesma parcela, seguindo-o, e a Yanmar está a trabalhar num conceito semelhante, com a ligeira diferença de ser o trator sem condutor a seguir na frente do trator com condutor.

Mas, neste domínio, outros têm surgido, à margem das grandes marcas. O projecto RHEA, um consórcio financiado pela UE, desenvolveu tratores autónomos para pequenas explorações, baseados em modelos do Grupo CNH, e a firma holandesa Precision Makers já comercializa o kit Probotiq X-pert, aplicado aos tratores especializados da Fendt, para que façam os tratamentos em vinhas ou pomares, de modo totalmente autónomo, sem condutor.
Uma abordagem diferente é a praticada pela firma americana ATC (Autonomous Tractor Corporation), que propõe fazer a transformação de velhos tratores em tratores que dispensam condutor, dando-lhe uma nova vida ao aplicar motores elétricos nas rodas e um sistema de navegação de longo alcance (LRNS).
É também oportuno referir a comunicação V2V (Vehicle-to-vehicle), a que por exemplo a John Deere atribui a designação Machine Sync. Através desta tecnologia, uma ceifeira debulhadora pode ligar-se via rádio a um trator que use um reboque de transfega, de modo a que ambos avancem a uma velocidade coordenada.
Como vê, são inúmeras os projetos que têm surgido. E poderíamos continuar a enumerar outros casos.
 

O debate em torno da tecnologia

A visão cética

Acerca da aplicabilidade prática dos tratores sem condutor, as opiniões não são unânimes. Há quem entenda que estes lançamentos servem sobretudo como operações de marketing, para os fabricantes mostrarem o ponto em que estão em termos de domínio da tecnologia, sem que num futuro previsível venham a ser vistos nos campos tratores a trabalharem sozinhos, até porque, por norma, os agricultores gostam de se sentar aos comandos das suas máquinas e não as encaram de modo desapegado como farão por exemplo com um pivot, equipamento que já é habitual gerirem através de uma app no telemóvel. Ou seja, as máquinas agrícolas não se resumem à sua função, envolvem também experiências e sensações, e muitos agricultores não estarão dispostos a abdicar dessa vivência. 
Além disso, a fase inicial de qualquer nova tecnologia envolve preços altos, o que num tempo de orçamentos magros pode não antecipar um futuro promissor. Os céticos mencionam ainda os problemas de segurança, dado que uma máquina não tem a mesma capacidade para lidar com situações imprevistas que tem uma pessoa.

A visão entusiasta

Mas há também quem assuma uma postura entusiasta, e considere que a tecnologia passará em breve a ser utilizada em algumas explorações. No setor automóvel os avanços em matéria de desempenho autónomo dos veículos começam a chegar aos modelos de produção em série, e no setor das máquinas agrícolas a condução automática via GPS (os chamados sistemas de autoguiado) já conquistou o seu espaço entre os agricultores que desenvolvem trabalho mais intensivo. Na verdade, os tratores com pack mais completo, têm já um grau muito alto de automatização e há tarefas em que praticamente dispensam a intervenção do condutor.
Isto leva algumas pessoas a pensar que em propriedades de grande extensão a tecnologia de condução 100% autónoma possa vir a ser usada, para rentabilizar os encargos com pessoal (o Manuel Joaquim pode encarregar-se de trabalho de oficina nas instalações da exploração, enquanto o trator segue sem ele), e para se poder trabalhar durante turnos mais longos, inclusive noite dentro. Afinal, o passo a dar até já não é assim tão grande, tendo em conta o patamar de desenvolvimento em que já nos encontramos.

 

Perspetivas de futuro

Cada uma destas visões terá o seu quê de razão. No fundo, ainda está por provar se esta tecnologia dá totais garantias de segurança, e também se deixará de ser apenas uma atração para ser mostrada em feiras para passar a ser uma ferramenta em que os agricultores investem para ser usada no dia-a-dia com utilidade prática.
Mas se lermos o “Digit@al Manifesto”, um documento que o CEMA e o CECE divulgaram conjuntamente no ano passado, percebemos que há um caminho que está a ser trilhado pelos fabricantes, junto de quem define as regras a nível europeu, no sentido de agilizar a legislação, para que ela acompanhe as possibilidades fornecidas pela tecnologia. 
Diz assim: “As tecnologias digitais estão a redefinir as fronteiras respeitantes ao funcionamento das máquinas de modo autónomo. A regulamentação relativa à segurança […] precisa de evoluir a par com os progressos que vão sendo feitos pelas tecnologias digitais. Por exemplo, o atual requisito de que uma pessoa tem de estar o tempo inteiro aos comandos de um veículo, pode precisar de ser revisto”.
A este respeito, o futuro não sabemos exatamente como será, mas há coisas sobre nós, humanos, que sabemos como são. Com frequência surgem soluções tecnológicas que vêm dar resposta a necessidades que não sabíamos que tínhamos, habituamo-nos a usá-las, e adaptamos o nosso estilo de vida. Vá-se lá saber se alguns empresários agrícolas não passarão a encarar os seus campos como uma espécie de fábrica robotizada, que podem supervisionar e gerir a partir de uma sala de controlo.

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