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De sol a sol com as Braud pelas vinhas do Oeste e Alentejo

02/01/2020

São sete horas quando o Sol se espreguiça, clareando as planuras de Évora, dir-se-ia que da mesma cama alaranjada em que se deitara, ainda o crepúsculo era tépido. E há um ronronar contínuo que aumenta de intensidade, que só minimamente inquieta tal quadro. Na mesma medida, dois pontos brilhantes se vão aproximando. Os primeiros raios no horizonte revelam-nos um e outro, que afinal fazem parte de um só todo, parecendo uma ave pernalta e grandiloquente, que se destaca sobre as filas das videiras. É a New Holland Braud VL 610, máquina de vindimar que estava a operar desde a madrugada na Herdade da Fonte Coberta, propriedade de 250 hectares que produz, transforma e engarrafa o vinho para o grupo vitivinícola Santos & Santos, sediado em Ponte do Rol, Torres Vedras. Recentemente adquirida à Auto Agrícola Sobralense por aquela sociedade, é uma de muitas com que nos cruzámos na jornada vitivinícola, de sol a sol, do Alentejo ao Oeste.

Assim se trabalha em época de campanha, no Alentejo, mas também pelas acidentadas orografias dos concelhos de Torres Vedras e de Alenquer, entre encostas sucessivas, entrecortadas por velas de moinhos que nos fazem recuar ao tempo dos moleiros e da produção de trigo. De há muito que as honras aqui são feitas à produção de vinho. Em 2018, estes dois concelhos repartiram as mordomias da Cidade Europeia do Vinho.
Por aquelas estreitas estradas sucedem-se os reboques atrelados a tratores conduzindo o produto a transformar nas adegas, principalmente para a de São Mamede da Ventosa, por sinal a de maior produção nacional. Nada de estranhar, pois segundo os dados de 2016 os volumes apontam para uma produção na ordem dos 42 milhões de litros anuais.



 

Cada encosta, cada máquina
Tal como o vinho, é a Auto Agrícola Sobralense a fornecedora por excelência da grande maioria das máquinas de vindimar que otimizam o trabalho do homem por aquelas e outras terras, mesmo as de Viseu, onde tem filial. Subimos às casas agrícolas e observamos os trabalhos, na Almiara, na Caixaria – que adquiriu a primeira de 50 vindimadoras New Holland já comercializadas pela Sobralense, uma SB64, nos longínquos dias de 1996. Ainda lá está a trabalhar. Cruzamo-nos com António Joaquim Santos, o feliz proprietário de uma nova Braud 9070 L, e esta está a laborar, saltamos à Casa Santos Lima, onde outra se detém, por breves instantes, o suficiente para descarregar o depósito de 2600 litros para o reboque. “Está ótima, a trabalhar bem e a fazer apenas oito litros/hora, o que é obra”, diz-se, de passagem, com quem nos cruzamos. Na Quinta da Cidadoura, de novo no universo da Santos & Santos, é o mesmo trabalho com as Braud, que os prestadores de serviços utilizam para dar resposta aos clientes.

Encontramos João Francisco Santos nas modernas instalações da casa fundada em 1977 pelos seus pai e tio, Abílio e Armando dos Santos, em Ponte do Rol. É ele que preside ao conselho de administração, acompanhado pelas duas irmãs e os dois primos.
É um homem de meia idade que se entusiasma quando o assunto é o vinho de qualidade, as máquinas que o ajudam a produzir. Mas também quando o tema são os moinhos: “É da terra que viemos, pois o meu pai e tio eram moleiros. E sou um amante das máquinas e dos moinhos. Aos 11 anos de idade já trabalhava com tratores agrícolas e já me desenrascava muito bem. Gastámos bom dinheiro com a recuperação do moinho em Ribeira de Pedrulhos, uma obra de arte. É um símbolo nosso. Há pouco fez-se um passeio de tratores pela Rota dos Moinhos. E todos lá pararam. Foi um espetáculo.”



 

Amizade pessoal e comercial
As máquinas, já o sabemos como outras das paixões do empresário, sejam as da New Holland, seja a relação com a Auto Agrícola Sobralense. “É uma relação comercial muito boa, mas também um pouco pessoal. Somos amigos da família Auto Agrícola há muitos anos. Tinha uma grande relação de amizade com o Francisco [Penedo]. Agora, trato das coisas com o João e, até à data, as coisas têm corrido muito bem. Equipamento adquirido à Auto Agrícola devem ser já uns 15 tratores New Holland e uma máquina de vindimar”, diz João Francisco Santos, que diz nem saber bem qual o primeiro pólo de atração, se o fabricante, se o comerciante: “A verdade é que correu tudo muito bem com o primeiro negócio, com o primeiro trator New Holland. Depois foi uma sucessão de compras, e a AutoAgrícola nunca deixou de ser o nosso fornecedor.”

 

Máquina não é camisa
Em plena azáfama de colheita, nem pensar em avarias. A verdade é que nada tem faltado, quando necessário, como assistência técnica. “Pura e simplesmente, as máquinas não ficam paradas”, atalha o empresário, que se diz, até, algo conservador com a maquinaria - “estimamos muito o que temos” -, mas que a Sobralense é pródiga em “fiscalizar” o estado do equipamento que vendeu e, como tal, de aconselhar a sua troca quando é de todo conveniente: “Uma máquina não é uma camisa, mas sempre que é necessário procedemos à sua substituição, naturalmente. Quem diz máquinas, diz alfaias e outros equipamentos. Estamos sempre a fazê-lo.”

Sobre a novíssima Braud nos ativos da Herdade da Fonte Coberta, João Francisco não se poupou a encómios: “É tão imponente quanto moderna essa New Holland, e está a desempenhar um excelente trabalho. Quando hoje trepo a uma cabine nada tem a ver com os meus tempos de criança. Mesmo os tratores que já têm dez anos já não têm comparação. Tem sido uma evolução muito grande, e assim continuará a ser.”

 


Colheita boa, mas pouco peso
Ao observar o trabalho das New Holland Braud, no Alentejo ou por Torres Vedras, nota-se grande diligências no serviço, quer pelo engaço limpo, quer pelas ínfimas perdas verificadas, graças aos godés do sistema Noria. Já o calibre da colheita tem gerado algumas queixas, não pela qualidade do fruto, mas pelo peso do cacho: há muita uva, mas tem pouco líquido.
João Francisco Santos dá razão às lamúrias: “Estamos sob o mesmo telhado, com produção mais baixa. Algumas das nossas parcelas sofrem desse problema. Outras estão perto da normalidade, pois são terras de várzeas, têm mais humidade e têm menos perca de fruto. No Alentejo, a perda é menor, pois temos rega gota-a-gota e fomos conseguindo controlar. Nada comparável com a colheita do ano passado, que sofreu um grande escaldão.”
Sem formação específica na matéria, mas apelando à voz da experiência e do senso-comum, avalia que o problema deve-se a anos consecutivos de seca. Os terrenos perderam muita humidade e com alguns dias quentes recentes a uva começou a secar e a perder líquido.


Primeiro moleiros, depois viticultores, os fundadores da Santos & Santos mantiveram o moinho, que foi reconstruído. “Estavam sempre à espera que viesse vento para moer o trigo e fazer farinha. As pessoas iam lá e trocavam o trigo – chamava-se a maquia – e depois levavam a farinha. Tanto esperavam pelo vento que acabaram por mudar de vida. Mas eram conhecidos na região de Torres Vedras. Tanto que acabámos por fazer uma marca chamada de Moleiros, por sinal a nossa marca mais antiga”, disse João Francisco Santos, orgulhoso por manter a tradição.

 

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